Terça-feira, 25 de Setembro de 2007

Jardins ricos e vulneráveis

Há quintas madeirenses, com unidades hoteleiras, cuja riqueza florística permite que desenvolvam o conceito de hotéis botânicos. Existem outras com condições para funcionar como colecções botânicas privadas

 

Com a devida vénia ao Diário de Notícias da Madeira

 

 

Trinta e três espaços verdes do Funchal foram objecto de uma tese de doutoramento. Inventariar a flora ornamental, conhecer as espécies, a sua origem, detectar as que estão ameaçadas e contribuir para que os jardins evoluam, no sentido de áreas privilegiadas de formação ecológica e de educação ambiental, constituem alguns dos objectivos da investigação. Árvores, arbustos e pequenas plantas de parques, jardins, quintas e cemitérios foram inventariados entre 2002 e 2005. Nos espaços verdes estudados identificaram-se 194 famílias, 901 géneros e 1928 'taxa' (1771 espécies, 32 subespécies, 40 variedades e 85 híbridos). Os resultados revelam uma "elevadíssima fitodiversidade, mas simultaneamente uma enorme vulnerabilidade florística", afirma o autor, Raimundo Quintal. A tese, intitulada 'Estudo Fitogeográfico dos Jardins, Parques e Quintas do Concelho do Funchal' foi apresentada em Julho, na Universidade de Lisboa, tendo sido aprovada com Distinção e Louvor. O júri aconselhou a sua publicação. Entre as quintas privadas estudadas estão a Quinta do Palheiro Ferreiro, com "a maior riqueza florística (631 espécies)", a Quinta Monte Palace (484 espécies), a Quinta Palmeira (414 espécies) e a Quinta Jardins do Imperador (284 espécies). As quintas que funcionam como espaços públicos, geridos pelo Governo Regional, foram também alvo de estudo, nomeadamente a Quinta Magnólia, a Quinta Vigia, a Quinta das Cruzes, assim como o Parque de Santa Catarina, o Jardim Municipal, o Parque Municipal do Monte e jardins de unidades hoteleiras. Neste último caso, foram seleccionados os jardins do Hotel Savoy e os do Hotel Reid's, "uma preciosidade como unidade paisagística e em termos de riqueza florística", comenta Raimundo Quintal. Os espaços ajardinados do Pestana Village, do Hotel Cliff Bay e Pestana Casino Park integram também o estudo, "atendendo a que, para além da introdução recente de espécies, há algumas árvores que se mantiveram das antigas quintas Pavão, Vigia e Bianchi". Da investigação faz parte também o Cemitério de São Martinho e o Cemitério Inglês com o objectivo de perceber, através da flora ali existente, a influência cultural, diz o autor. Para cada um dos 33 espaços seleccionados foram inventariadas todas as espécies e cartografadas à escala do canteiro, assim como foi elaborado um elenco florístico de cada um, no sentido de determinar a sua riqueza. As espécies foram analisadas, entre outros aspectos, consoante o porte, a origem, o regime fenológico (folheação e floração) e estudado o índice de rusticidade (temperatura mínima que suportam).

 

A propósito da proveniência das espécies existentes, Raimundo Quintal diz que "é possível concluir que 64 a 66% da flora dos jardins do Funchal tem origem tropical e subtropical, enquanto 30 a 32% provém das regiões de clima temperado". Perante os resultados adianta que muitas das plantas foram introduzidas pelos emigrantes. "Há uma correlação positiva entre as regiões de origem das plantas e os países onde vivem as comunidades madeirenses. Muita da riqueza existente tem a ver com esse movimento, que tem sido esquecido, mas que é uma realidade". Na perspectiva do investigador, a forte componente Neotropical depende das sementes, estacas e mudas trazidas pelos emigrantes madeirenses desde a Venezuela ou do Brasil, enquanto a representação da flora Áfricotropical não pode ser explicada sem a participação activa dos emigrantes na África do Sul ou das pessoas que viveram em Angola e Moçambique. A tendência para trazerem e levarem plantas foi confirmada durante a investigação, diz Raimundo Quintal. Como exemplo refere o comendador José Berardo ao trazer as "cicas" da África do Sul para a ilha. "Como emigrante com sucesso pôde trazer em quantidade plantas que gostou. Com essa atitude praticou o comportamento habitual de outros madeirenses que, com menos posses, traziam na mala ou nos bolsos pequenas plantas, sementes, bolbos e estacas". Actualmente - diz - "este comportamento tende a esbater-se com a globalização do negócio das plantas, importando-se as que estão em moda nos grandes mercados internacionais".

 

Raimundo Quintal considera que esta situação "está a criar algo indesejável, que é a normalização. Vai retirar a identidade que existia, porque as plantas que estão a ser introduzidas nos jardins mais recentes, quer em hotéis, quer em espaços públicos, fazem com que não se distingam dos que os turistas observam nas Canárias e em muitas regiões do Mediterrâneo". Mas se os madeirenses emigrados foram e são responsáveis pela introdução de imensas plantas ornamentais, "não é menos verdade que as famílias inglesas contribuíram de forma muito significativa para a riqueza florística dos espaços verdes do concelho do Funchal", afirma o investigador, apesar de salvaguardar que a influência dos ingleses na introdução de plantas na ilha "não tem o peso que se tem afirmado. Fala-se em pessegueiro-inglês e tomateiro-inglês, mas nenhuma dessas plantas é originária da Inglaterra e duvido que tenham vindo para quintas inglesas". Explica que nas muitas quintas construídas no Monte, Palheiro Ferreiro, Camacha e Santo da Serra, a partir da segunda metade do século XVIII, foram introduzidas espécies da flora temperada, com o objectivo de recriar as paisagens britânicas. Entre os 500 e os 700 metros de altitude, as mudanças de cor, o nascimento e a perda das folhas das árvores caducifólias marcam as estações do ano. Nos jardins da beira-mar, onde predominam as plantas dos climas tropicais e subtropicais, as cores da paisagem ao longo do ano dependem essencialmente dos diferentes regimes de floração.

 

Mas se a riquíssima fitodiversidade é evidente, há também, conforme revela o estudo, uma grande vulnerabilidade taxonómica. Raimundo Quintal explica que dos 1928 'taxa' que integram o Elenco Florístico dos 33 espaços verdes estudados, 818, ou seja 42,4%, apenas ocorrem num dos espaços e 254 (13,2%) só estão representadas por um indivíduo, "o que significa que muito facilmente poderão desaparecer". Atendendo a esta situação crítica, considera necessário a criação de uma equipa de trabalho com o objectivo de multiplicar e preservar as espécies ameaçadas. Entre as conclusões apresentadas refere que "apenas 23 espécies aparecem em mais de 75% dos espaços verdes estudados. As mais marcantes são o jacarandá ('Jacaranda mimosifolia'), a sumaúma ('Chorisia speciosa'), a planta dos dentes ('Plumeria rubra') e a chama da floresta ('Spathodea campanulata'). São árvores de flores espectaculares que são estruturantes na arquitectura e essenciais na imagem dos jardins subtropicais". Segundo a tese, as duas espécies mais frequentes nos jardins do Funchal são a palmeira das Canárias e o cardeal. Realça também a presença muito frequente de espécies da Madeira, como o til ('Ocotea foetens'), o dragoeiro ('Dracaena draco ssp. draco'), o barbusano ('Apollonias barbujana') e os massarocos ('Echium candicans e Echium nervosum'). "Isso revela o bom hábito da utilização das espécies indígenas. É uma marca positiva", destaca o geógrafo. Os espaços verdes estudados - afirma- "além do contributo para a imagem do Funchal como Cidade Jardim, funcionam como repositórios de flora exótica e indígena, garantindo a conservação 'ex situ' de espécies ameaçadas na Natureza. Como exemplos temos o dragoeiro ('Dracaena draco ssp. draco') e o mocano ('Pittosporum coriaceum'), uma árvore endémica da Madeira, extremamente rara nalgumas ravinas no norte da ilha, que sobreviveu nas quintas Monte Palace, Jardins do Imperador e Palheiro Ferreiro".

 

O autor do estudo evidencia também a importância dos espaços verdes para o turismo. As quintas - conforme salienta - constituem um importante nicho na oferta turística da ilha. "Os números referentes às entradas pagas na Quinta Monte Palace e na Quinta do Palheiro Ferreiro permitem concluir que são visitadas por cerca de 25% dos turistas que entram na Madeira", mas apesar desta afluência a maioria "usufrui dos espaços verdes de forma passiva". A propósito Raimundo Quintal considera que a Quinta do Palheiro e a Estalagem Jardins do Lago possuem condições para desenvolver o conceito de hotel botânico, onde para além do lazer o hóspede poderia usufruir de informação circunstanciada sobre flora e ter a possibilidade de fazer férias activas, participando nas tarefas de conservação e enriquecimento da formação vegetal. Poderiam ter pequenos cursos de jardinagem, associar-se aos trabalhos o que criaria uma certa fidelidade, atendendo a que as pessoas gostam de ver o resultado do que plantaram. Por outro lado, diz que há três quintas que, não integrando hotéis, possuem uma riqueza florística que lhes permite desenvolver o conceito e integrar a rede internacional de colecções botânicas privadas: a Quinta do Monte Palace, a Quinta Palmeira e a Quinta Jardins do Imperador. "A primeira já iniciou esse percurso necessitando, no entanto, de melhorar os conteúdos informativos. A Quinta Palmeira e a Quinta Jardins do Imperador têm um caminho mais longo a percorrer, quer nos trabalhos de manutenção, quer na produção de informação. A primeira, situada entre 200 e 300 m de altitude, possui espécies que não existem em nenhum outro local. O seu património florístico ultrapassa as 400 espécies, algo muito semelhante ao património inventariado para o jardim Tropical em Lisboa". O estudo levou à criação de uma base de dados que abarca 95% das espécies da flora ornamental existente na Madeira e pode ser actualizada constantemente para cada jardim e para o conjunto dos 33 espaços. Possibilita, conforme refere, verificar em tempo real o que é introduzido e o que desaparece. Entre os objectivos já enunciados a tese permite também disponibilizar informação para que utentes e gestores dos espaços verdes conheçam as características fitogeográficas e o valor ecológico das espécies e para que possam melhor preservá-los.

 

Bilhete de Identidade

 

Nome: Raimundo Quintal

 

Data de nascimento: 6-10-1954

 

Naturalidade: São Martinho, FunchalPercurso académico e profissional: Licenciatura em Geografia pela Universidade de Lisboa em 1981. Doutoramento em Geografia, especialidade em Geografia Física, pela Universidade de Lisboa, concluído a 20 de Julho de 2007. Foi professor de Geografia na Escola Secundária Francisco Franco desde o ano lectivo1985/86 e assistente convidado do Departamento de Educação da Universidade da Madeira no ano lectivo 2001/2002. Presidiu o Clube de Ecologia Barbusano desde a sua fundação em 1988, até 1994. De Outubro de 1981 a Julho de 1986 e Outubro de 1990 até Fevereiro de 1993 foi coordenador do suplemento Cidade/Campo, sobre temas de Urbanismo e Ambiente, no Diário de Notícias do Funchal.

 

É autor de várias obras e de numerosos artigos de Ecologia, Biogeografia e Educação Ambiental publicados em jornais e revistas. Realizou documentários, da sua autoria, sobre património natural e cultural, exibidos em televisões nacionais e internacionais. De Outubro de 2002 a Junho de 2003, criou e apresentou programa semanal sobre Educação Ambiental na RDP- Madeira. Vereador do Pelouro do Ambiente, Educação e Ciência, de Janeiro de 1994 a Janeiro de 2002, promoveu a vertente educativa das questões ambientais. Entre os projectos de conservação da natureza, de requalificação paisagística e de educação ambiental que liderou está criação do Parque Ecológico do Funchal e o Galardão de Ouro das Cidades e Vilas Floridas da Europa. É sócio fundador da Associação dos Amigos do Parque Ecológico do Funchal e presidente da direcção desde Fevereiro de 2002. É membro do Conselho Consultivo das Ilhas da 'Seacology Foundation', com sede em Berkeley, nos EUA. Teresa Florença

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publicado por João Carvalho Fernandes às 12:00
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1 comentário:
De Rodrigo a 3 de Junho de 2008 às 16:53
Gostaria de obter mais informaçoes sobre a Pittosporum coriaceum, que eh nativa da ilha da madeira.

aguardo retorno

Rodrigo

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