Terça-feira, 11 de Setembro de 2007

"Há um novo paraíso no Atlântico"

Com a devida vénia ao Jornal da Madeira

 

Os mais antigos não devem conhecer - ou até saber pronunciar - o nome canyoning. Mas se lhes falarmos de - descidas de ogaje, devem associar aos montanhistas e cabreiros que desciam as ribeiras madeirenses. Antes por necessidade, agora por desporto, o canyoning está na moda e a Madeira tem um potencial a explorar. Para muitos estrangeiros praticantes, há um novo paraíso no Atlântico.

 

No ponto de vista de um dos impulsionadores da modalidade na Região, há que criar legislação específica para a prática das descidas de ribeira, com a definição de regras claras. Entretanto, Rui Nelson descreve à Olhar a experiência de descer uma ribeira, com os sons da água e o cheiro da natureza como companhia

 

 

As ribeiras e cascatas madeirenses são mais do que cursos de água. Cada vez mais são usadas para a prática de um desporto radical que está na moda. O canyoning é uma modalidade com vários anos de existência na Madeira que se possibilita descidas vertiginosas pelas águas transparentes do interior da ilha, com a beleza verdejante como testemunha daqueles que, durante vários anos, têm vindo a se aventurar por este tipo de trilhos, quer seja por aventura quer seja por necessidade. Antes, o canyoning dava pelo simples nome de "descida de ribeiras" ou, um termo mais regional, "descida de ogajes".

 

Antigamente, esta prática era comum por parte dos montanhistas e cabreiros, homens que tratavam do gado pelas serras e que tinham de seguir os trilhos das cabras para as manter unidas. Com a saída destes animais das serras, as descidas de ogajes perderam o seu sentido prático, mas ganharam adeptos, aventureiros que gostam de aliar a aventura ao ar livre.Apesar de só agora estar na moda e na boca do mundo, foram vários os madeirenses que nos últimos anos se embrenhavam no interior da ilha para se aventurarem nestas descidas, como era o caso do cardiologista Alivar Cardoso, já falecido. "Das pessoas mais antigas que já ouvi falar, foi do dr. Cardoso, que descia o Ribeiro Frio já há muitos anos atrás", salienta Rui Nelson, do Clube Naval do Seixal, entidade que recentemente organizou um encontro internacional de canyoning na Madeira, que diz que este desporto tem futuro na Região, em termos de potencial turístico.

 

É necessário criar legislação para a modalidade

 

Contudo, chama a atenção para a necessidade de ser criada legislação regional para a modalidade, com vista ao estabelecimento de regras não só para os praticantes mas também para a defesa dos vários lugares que permitem descidas de aventura nas várias cascatas da Madeira. A seu ver, há que respeitar a história das descidas de ogajes, os primeiros "ogajeiros", os lugares e os seus nomes e que definir na lei quais as ribeiras que podem ser usadas para as descidas.

 

De momento, o Clube Naval do Seixal e as agências interessadas nesta modalidade de aventura estão a dialogar com as entidades regionais, como é o caso da Direcção Regional das Florestas e da Direcção Regional do Ambiente, com o objectivo de serem criadas regras para esta prática e para a segurança de quem a faz. "Como estamos no início, e se trabalharmos todos para o mesmo fim, penso que teremos uma modalidade que também vá caracterizar a Madeira, como um cartaz turístico que já está feito e que não tem concorrência. Só temos de o organizar", sublinha este impulsionador do canyoning.

 

Salientando que o Clube Naval do Seixal abraçou esta modalidade por estar ligada à água e por ser naquela freguesia que se encontram "as melhores cascatas da Madeira", Rui Nelson explicou que uma descida de ogaje para um iniciado é difícil. "A maior parte das nossas cascatas são extensas e não é qualquer um que as consigam descer", comenta. Contudo, "o potencial para pessoas que são especialistas ou que têm formação nesta área é muito grande". A Madeira está a ganhar nome internacional no que se refere a esta oferta, de descidas de ribeiras. Rui Nelson salienta que "um dos melhores lugares do mundo para esta prática é na Ilha de Reunião, no Índico".

 

Mas, muitos estrangeiros começam a conhecer a potencialidade da nossa ilha e estão a passar a palavra de que "há um novo paraíso no Atlântico, que é a Madeira, para este desporto de aventura".

 

 

Formação é muito importante

 

Não só a pensar nos turistas mas também nos madeirenses, o Clube Naval do Seixal - bem como outros clubes regionais que estão a apostar no canyoning - está a incidir na formação. Até ao momento, já realizou três cursos de formação, que fornecem ao formando o cartão da Federação Nacional de Montanhismo. Mais cursos serão ministrados, divulga ainda. O Clube Naval do Seixal conta actualmente com cerca de 30 praticantes da modalidade, de várias idades.

 

Rui Nelson recorda ainda que o último encontro internacional de canyoning realizado pelo Clube Naval do Seixal teve "uma projecção enorme nos sites espanhóis, franceses e alemãs", nomeadamente. Com os primeiros passos a serem dados para o reconhecimento internacional, o entusiasta adianta que será organizado um novo evento no próximo ano. O Clube já está a ser contactado por vários montanhistas do Brasil, França, Espanha. "Há uma grande afluência em virem para cá. Neste momento, as fotografias da Madeira começam a aparecer nos sites internacionais. Começa-se a revelar que temos potencial".De qualquer modo, Rui Nélson chama a atenção: "nós não estávamos nem estamos preparados ainda para desenvolver a modalidade na Madeira. As infra-estruturas já estão feitas, que é a própria natureza, mas é preciso definir em termos de legislação, como é que é feito o canyoning na Madeira, se devemos dar conhecimento - e a quem - de que vamos fazer descidas de ribeiras, por exemplo".

 

Livro francês vai colocar canyoning madeirense na boca do mundo

 

Com a ausência de legislação portuguesa, os madeirenses optaram por seguir o que define as lei francesa sobre a modalidade. A propósito, o membro do Clube Naval do Seixal salienta que será editado no próximo ano um livro sobre o canyoning da Madeira, por um autor francês. "Ele está a fazer um levantamento sobre os canyonings da Madeira e refiro que se deve ter cuidado em manter os nomes originais das ribeiras, como os nossos antepassados - os cabreiros - chamavam, não usar estrangeirismos para as nossas ribeiras e veredas".

 

Com esse livro, Rui Nelson acredita que haverá uma "enorme projecção" da Madeira tendo em conta que a obra será lançada internacionalmente. É necessário pensar em termos futuros, com o aumento de visitantes específicos para a prática desta modalidade. De momento, a procura já dá sinais de crescimento. "Todas as semanas temos pessoas a nos contactar do estrangeiro interessadas em cá vir para fazer canyoning. Neste momento, se alguém quiser descer ribeiras, a que está a ser usada para esse fim, e devidamente preparada, é a do Ribeiro Frio. É uma zona muito acessível até para os iniciados, porque tem cascatas pequenas e que está já a ser comercializada como produto para esta modalidade. Muitas agências já usam esta ribeira como uma oferta para o canyoning".

 

Quanto a outras cascatas, Rui Nelson diz que são mais difíceis, mas que são aliás as que terão maior procura por parte dos canyonistas especializados. De uma vasta lista, e de acordo com a página da internet http://canyoningmadeira.blogspot.com/, o canyoning pode ser praticado nas Ribeiras do Seixal, na Ribeira Funda, da Hortelã, do Alecrim, das Cales, da Pedra Branca, da Água Negra, do Inferno, entre muitas outras.

 

Neste sítio da net, o responsável informa a necessidade de pedir autorização à Direcção Regional de Florestas para a prática da modalidade.

 

Madeira tem de gerir melhor canyoning do que fez com surf

 

Noutro âmbito, o nosso entrevistado, Rui Nelson, diz que a Madeira tem de saber gerir a oferta deste desporto de aventura, de modo a que não aconteça o mesmo que aconteceu ao surf, que perdeu o seu mercado. "Temos de ter os devidos cuidados e penso que os vamos ter".

 

Apontando o exemplo dos Açores que não tendo qualquer historial de canyoning, preparou uma equipa para estudar as potencialidades da modalidade, Rui Nelson considera que essa ideia deveria ser analisada pela Madeira. "Mas temos de perceber quais as potencialidades que temos e organizá-las à nossa maneira, com o apoio de alguém de fora. Acho completamente certo ir lá fora ver o que está a ser feito, em lugares que vivem economicamente dos desportos de aventura e da natureza e trazer as pessoas certas para nos ajudarem a fazer um plano de desenvolvimento para esta modalidade na Região", defende.

 

Com ou sem estudos ou regras, a verdade é que o canyoning - ou as descidas de ogajes - já está em crescimento na Madeira, quer para os turistas quer para os madeirenses. Com a devida formação, Rui Nelson descreve a sensação de descer uma ribeira: "já houve ogajes e que eu tive de parar, fechar os olhos e ficar ali apenas a sentir. Acreditava que a experiência seria boa, mas ao fazê-la, ao sentir os sons e os aromas da nossa floresta, há uma troca de energias entre o homem e a natureza à qual aconselho as pessoas a experimentarem".

 

Paula Abreu

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publicado por João Carvalho Fernandes às 10:02
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4 comentários:
De Joao a 26 de Fevereiro de 2008 às 17:51
Desculpe que lhe diga Cesar mas você percebe de turismo mas é uma ova.
Eu se fosse a si tinha mas era vergouha de tecer esse tipo de comentários.
De Rui Ribeiro a 20 de Outubro de 2007 às 15:29
Não são rentáveis os surfistas como turistas? è uma opinião que respeito apesar de discordar completamente. Em Portugal há muitos surfistas que gastam anualmente varios milhares de euros em viagens pelo mundo apenas para surfar. Tendo a Madeira excelentes condições para a practica do Surf, não seria lógico que muitos destes viajantes passassem pela ilha? Porque haverão de gastar 1500 euros numa viagem para outro local se por muito menos poderiam ter umas excelentes férias de surf na Madeira? O problema é que aí não existem condições para esses surfistas, porque nem todos são pé rapado, nem todos são miudos que dormem na praia ou campismo e pouco gastam na ilha. A maioria destes viajantes são adultos, com familia, bons empregos e que procuram férias de surf com qualidade e condições, e isso a Madeira não tem, porque não quer! As canárias tb têm muito turismo, e adoram os surfistas!
De Rodolfo Gouveia a 26 de Setembro de 2007 às 11:24
Pode chamar estratégia turística, e ao que chama destruir a costa madeirense? Reordenamento e desenvolvimento territorial? Se tiver mais dessas ideais brilhantes, o Governo de certeza que está a procura de alguém capaz para inventar nomes as coisas. Por mim, podem não querer o surf na Madeira, escusam de destruir a costa. Mas, a conta disso ficamos cada vez mais conhecidos lá fora. Não pela positiva como se quer, mas como aqueles que tinham um grande património marítimo e transformamos-o num "Bloco de Cimento"!
De césar a 12 de Setembro de 2007 às 13:26
Não acho que o surf foi mal gerido. Se quer que lhe diga, acho mais que foi estratégia turistica. Não interessa ter na região ter o turista do surf. Não é rentável, nem é nada vantajoso. De qualquer maneira, o surf é possível por isso acho o sufciente para uma ilha como a nossa. Nunca comperemos com o hawai que por ter um turismo com orientação mais jovem e varias ilhas, pode oerecer melhores condições nesse aspecto.

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