Quinta-feira, 2 de Agosto de 2007

Do alto do teleférico às funduras das Babosas

Com a devida vénia ao Jornal da Madeira

 

Esta semana a "Olhar" propõe-lhe uma subida até às zonas altas do Funchal, mais concretamente, até o Monte para trilhar a Levada dos Tornos, partindo do Largo das Babosas até chegar ao Curral dos Romeiros. O percurso é bonito e vale a pena ser feito, é pouco mais que uma hora a andar. A primeira parte deste troço custa um pouco mais porque obriga a uma subida que, a andar devagar, demora cerca de 20 minutos. Depois, é sempre a caminhar junto à levada, lado a lado com a profundeza da Ribeira de João Gomes, o que dá uma certa adrenalina. Por isso aconselha-se a quem tenha vertigens, que se esqueça isso, senão fica a meio caminho. O verde da laurissilva e o silêncio circundantes compensam o esforço.

 

 

O percurso desta semana levou-nos até ao Monte. Aceitamos a sugestão para conhecer, de perto, parte da Levada dos Tornos entre o Largo das Babosas e o Curral dos Romeiros. É pouco mais de uma hora a andar, com tempo suficiente para apreciar a paisagem, observar em pormenor a vegetação e tirar algumas fotos.

 

A entrada faz-se junto ao Largo das Babosas, entre a igreja e o café. Para quem não sabe, fica uns metros acima do ponto de paragem do teleférico que vem do Funchal. No local, as placas em madeira indicam a direcção a seguir: Levada dos Tornos, Levada do Bom Sucesso e Curral dos Romeiros. O caminho está calcetado. Para ajudar na descida, existe uma escadaria em pedra, a meio do caminho. Enquanto algumas pessoas aproveitavam o sol da manhã, bem morno e agradável, um casal de turistas, bem jovem, resolveu conhecer um pouco o trilho que se apresentava em frente.

 

Este percurso é ladeado por coroas de Henrique e muita verdura. Ao fundo vê-se parte da cidade do Funchal, nomeadamente, a altíssima ponte sobre a Ribeira de João Gomes onde vai desaguar a água que, mais adiante, encontramos a escorrer pelo fundo vale com o mesmo nome. O caminho está apetrechado por alguns candeeiros que ajudam se a caminhada for nocturna. Ao fundo vêem-se inúmeros pinheiros espalhados por toda a encosta.Pouco depois deixámos o caminho bem tratado para ingressarmos no trilho mais antigo, em terra batida, por entre raízes de árvores e algumas pedras. Esta é a parte do percurso que custa um pouco mais porque a subida é mais íngreme e o caminho faz-se por entre muitas curvas. Para além de exigir mais das pernas, obriga a um maior controlo da respiração porque, como se diz, "puxa pela caixa". Apesar do sol não ser, ainda, muito forte pela manhã, o certo é que esta subida íngreme fez mesmo aquecer. Alguns cactos e heras encontram-se dependurados das paredes rochosas, por entre alguns muros de pedra, construídos em tempo pelos homens para suster as terras e aproveitá-las para o cultivo.

 

Durante cerca de 20 minutos, é isto que o caminho nos oferece. Deixa-se de ver qualquer vestígio da presença humana, apenas muito verde. Pelo chão vêem-se alguns troncos que, pelo aspecto, bem aproveitados seriam para queimar na lareira, nas noites de inverno.Vislumbram-se, também, algumas acácias enquanto as tutinegras esvoaçavam e nos adoçavam a caminhada com o seu chilrear. A isto juntou-se o barulho da água que corria no fundo do vale. Mas ver a água correr, pelo menos naquele troço, era impossível porque o fundo do vale está coberto por uma densa vegetação.

 

Pelo chão vemo-la escorrer, aqui e ali, vinda dos lençóis freáticos que abundam no solo, por entre a faulha que cai dos pinheiros. Deixamos de ver o manto de acácias que deu lugar a um manto de feiteira e de pinheiros. Alguns têm mais de 50 metros, talvez dezenas de anos e estavam carregados de pinhas. Volvidos cerca de 20 minutos chegámos a uma clareira e encontrámos a Levada dos Tornos, a qual foi recuperada. A água corria no mesmo sentido que a nossa caminhada. No local, de lamentar apenas uma barraca construída de troncos mas cuja cobertura de plástico esvoaçava, de tão rota que está. A dificultar a passagem da água encontram-se pedaços de madeira dentro da levada. Mesmo assim, é uma óptima zona para uma paragem, ali perto da saída de um túnel, bem antigo, onde a rocha permanece à vista.

 

O túnel não é muito alto mas é comprido, mesmo assim, consegue-se ver a luz ao fundo. Seguimos em frente, com a perspectiva de um dia regressar para atravessá-lo mas com a ajuda de uma lanterna. A partir daqui o trilho é mais ou menos plano, em terra batida, com imensas curvas. Somos embalados pelo chilrear de outros pássaros que por ali andavam. Tendo em conta a vegetação rasteira e menos abundante que existe ao longo do vale, podemos ter a noção do quanto é fundo. Devido à altura e ao trilho que, nalguns troços tem pouco mais que o tamanho de um sapato, aconselha-se a um cuidado redobrado por parte de quem tenha vertigens ou problemas nos membros inferiores. A ajudar, nalgumas zonas foi colocada uma vedação que não seria nada mau se fosse extensível a outros espaços desta levada.

 

Existe uma queda de água a abrilhantar o caminho e foi construída uma pequena ponte para que esta possa escorrer para a Ribeira de João Gomes enquanto a restante parte segue na levada. A água é bem fresca. Atravessámos o pequeno túnel. Encontrámos alguns loureiros, urzes e outras plantas da laurissilva. Um pouco mais adiante, a água escorria de dentro das paredes de terra e um pequeno "chuveiro" dava um ar de sua graça, mais parecia uma morna manhã de Outono, com chuva miudinha a cair. Nalguns pontos encontrámos algumas sarralhas, que serviam para deitar ao gado e florículos bem como as infestantes bananiches que proliferam por entre o silvado. Nesta fase vislumbrámos o caminho já percorrido, do outro lado da encosta e começámos a avistar, novamente, a ponte da Ribeira de João Gomes, parte da cidade e o porto. Por entre a água que corria ouvimos o zunido dos carros a passarem na via-rápida. Aqui o trilho estreita, novamente. Passámos por baixo de um "toldo" de verdura, quase frente a frente com um carvalho gigante. Avistámos a primeira casa, ali bem perto, era sinal que estávamos quase a chegar à estrada. O casario começou, depois, a alargar-se perante os nossos olhos e alguns poios verdejantes, que mais pareciam pequenos campos de golfe. Deixámos a levada para atrás, entrámos num caminho em cimento que dá acesso às casas. Uma grande nogueira fez-nos sombra durante uns segundos. Descemos junto a um pequeno "rego" onde a água corria bem fresca. Uma placa em madeira indica o percurso que acabámos de fazer, Levada dos Tornos, mais abaixo outra indica Levada do Bom Sucesso - Monte.

 

Passámos as casas e por um fontanário onde a água corre bem fresca onde se podia ler "C.M.F.  1939". Um pequeno acesso já em alcatrão leva-nos até à estrada, mais concretamente, ao Largo do Curral dos Romeiros onde termina a carreira número 29 da Horários do Funchal. A vista que temos dali merece bem a caminhada que fizemos, mais parece que estamos a sobrevoar a cidade a baixa altitude.

 

Élia Freitas

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publicado por João Carvalho Fernandes às 16:18
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1 comentário:
De angelboop a 20 de Agosto de 2007 às 18:37
Olá é só para dizer k voltei a escrever no meu blog.bjs

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