Quarta-feira, 31 de Maio de 2006

Lobos marinhos regressam à Madeira

Com a devida vénia ao Diário de Notícias da Madeira

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A população de lobos marinhos das Desertas é a única que está a crescer em termos mundiais. Desde 1989 que foram detectados 36 nascimentos, inicialmente um por cada ano, mas o número tem vindo a aumentar. Em Novembro de 2005 nasceram três crias e estão todas vivas. Hoje estima-se que existam 30 animais. A Bi-risca, a Risca Grande, a Desertinha são algumas das fêmeas reprodutoras. O macho dominante é o Esbranquiçado, nomes que são atribuídos atendendo às características que apresentam, como as cicatrizes, a cor do pêlo e outros pormenores que os identificam. Restringidos durante muito tempo às ilhas Desertas, nos últimos anos começaram a ocupar a Madeira.

De acordo com trabalhos de realizados pelo Parque Natural da Madeira (PNM), há registos de 300 avistamentos que se concentram a Sudeste, desde Câmara de Lobos até à costa sul da Ponta de São Lourenço. Muitos deles são efectuados por populares que informam o PNM. Rosa Pires, coordenadora da Reserva Natural das Desertas e do projecto de conservação do lobo marinho, considera que «a colaboração da população é importante pois é impensável cobrirmos toda a ilha.

Deste modo a comunidade madeirense tem oportunidade de contribuir para o estudo do lobo marinho, que deixou de ser um animal só das Desertas, para passar a ser de todos nós». A sua presença na costa madeirense contraria o que vinha a acontecer desde o início do século XX. Nessa altura, os lobos marinhos eram raros na Madeira e nas décadas de 70 e 80 os avistamentos continuaram a ser esporádicos. Depois, em 1997, ocorrem observações e desde então o número tem vindo a aumentar, atingindo uma centena em 2004. As estimativas, baseadas no número de nascimentos e mortos e na dinâmica da população, mostram que a colónia «está em recuperação, invertendo um pouco a tendência mundial».

O lobo marinho ou foca-monge do Mediterrâneo, "Monachus monachus" é uma espécie ameaçada e por isso protegida. Em todo o mundo existem apenas 500 indivíduos. Em alguns casos existem populações estáveis, noutros desconhece-se o que está a acontecer e há mesmo locais onde está em regressão, explica a bióloga. A sua raridade tem levado a esforços contínuos de preservação. Nas Desertas, o projecto em curso visa essencialmente um acompanhamento do estado da população através de um programa de monitorização que se baseia na observação directa dos animais sem interferência nas suas actividades.

«Pretendemos saber se há nascimentos - onde e quando ocorrem- e conhecer as ameaças reais. Para isso fazemos, sempre que é possível, fotoidentificação, com base nas características de cada animal, principalmente das cicatrizes - que são muito pessoais nos lobos marinhos - o que permite que tenham um cartão de identidade. Neste momento, apenas uma fracção da população está identificada porque os indivíduos mais novos mudam de características, nomeadamente a tonalidade do pêlo, as manchas esbranquiçadas alteram-se, adquirirem cicatrizes...» Segundo a bióloga, a identificação correcta - e que passa a ser utilizada durante a vida - só pode ser feita aos 4, 5 anos. Estima-se que o seu tempo máximo de vida atinja os 35 anos.

«Adquirir conhecimentos para podermos preservar é o grande objectivo do nosso trabalho. A investigação realizada serve para obtermos as informações necessárias para adoptarmos as estratégias mais eficazes destinadas à protecção da espécie», acrescenta a investigadora. Neste momento, não estão a ser adoptados métodos de obtenção e processamento de dados à distância, como a telemetria e a "radio-tracking", pois «são métodos intrusivos». A opção tem sido pelo acompanhamento da população, pela utilização de um método científico itinerante que permite um conhecimento a médio e a longo prazo do padrão de actividade dos animais.

Conforme destaca Rosa Pires, «a população é muito pequena e estamos a lidar com uma espécie classificada pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) como em perigo crítico. Há determinadas técnicas que não devem ser utilizadas, uma vez que perturbam e não sabemos até que ponto é que podem afectar negativamente a colónia. Por isso temos optado por um método de monitorização não invasivo». O aumento do número de nascimentos confirma o sucesso dos métodos utilizados.

Os trabalhos de monitorização permitem conhecer um pouco do quotidiano destes mamíferos marinhos. Sabe-se que os nascimentos ocorrem em Novembro na gruta do tabaqueiro, considerada a gruta de maternidade, situada no extremo sul da Deserta Grande. É nesta área que as crias efectuam as primeiras incursões para o mar acompanhadas das suas mães. Com cerca de quatro meses, as crias já são bastante autónomas e então tendem a abandonar o local, dispersando-se.

«É nesta altura, durante o período de reprodução que os animais são mais gregários. As fêmeas agrupam-se naquela zona para cuidarem das crias. Em Março, os machos aproveitam essa concentração para tentarem o acasalamento, que pode ocorrer com diferentes fêmeas pois, à partida, há poligamia nesta espécie. O acasalamento é subaquático e o período de gestação é de cerca de 9 meses. As crias nascem em terra e passam por um período de amamentação que poderá atingir os 120 dias, embora esse tempo possa variar pois, como mamíferos, cada caso é um caso», acrescenta a bióloga.

A partir de Março verifica-se uma redução da actividade dos animais que começam a desaparecer. «Não sabemos para onde vão, pois não os seguimos. Presumo que a há um alargamento da área de distribuição e que passam a ter hábitos solitários. Uns ficarão nas Desertas, outros vêm para a Madeira. Há registos de dois avistamentos no Porto Santo e há outros locais que não são frequentados pelo homem e por isso não sabemos se aparecem ou não». A partir de 1997, alguns lobos marinhos começaram a ser observados numa praia aberta e desde então tem acontecido todos os anos. «Pensamos que alguns dos nascimentos podem ter ocorrido nessa praia. Este comportamento é extremamente positivo e alegrou-nos muito, pois demonstra que estão a voltar aos seus hábitos originais.

Muitos investigadores associam a sua ligação às grutas, ao facto de terem sido perseguidos pelo homem. Demonstra também que os métodos utilizados, muitas vezes alvo de críticas, estão a dar resultados. Esse comportamento só recentemente ocorreu na Grécia. Manter a vigilância e ter conhecimento de onde e quando os animais nascem permite actuar caso seja necessário, como já aconteceu. Muitas vezes, ao contrário do que se pensava, as fêmeas abandonam as crias para se alimentarem no mar, o que pode constituir um risco em caso de mau tempo.

Por isso, em 1997, construímos uma unidade de reabilitação na doca, de acordo com os modelos que observámos em Pieterburen, um centro de reabilitação e investigação holandês. Este centro colabora connosco em termos veterinários caso exista um paciente. Realizamos um treino naquela unidade e, sendo o lobo marinho uma espécie ameaçada, têm toda a disponibilidade para dar apoio, como ocorreu recentemente com a Desertinha».

O intercâmbio de experiências acontece com outros países. No início do mês de Maio, Rosa Pires esteve presente num congresso que se realizou na Polónia, organizado pela Sociedade Europeia de Cetáceos. «Trata-se do grande fórum onde se debatem as questões relacionadas com os mamíferos marinhos. Levámos a informação que tínhamos e trocámos experiências». O Parque Natural da Madeira mantém contacto com a organização MOM, da Grécia, e com a Fundação CBD, do Ministério do Ambiente de Espanha, que está a trabalhar na Mauritânia, países onde Rosa Pires esteve em trabalho. «Também já recebemos biólogos da Grécia e da Espanha».

No âmbito da Reserva Natural das Desertas decorrem outros projectos científicos sobre aves protegidas, caso da cagarra, da alma negra e da freira. «Este ano iniciámos um estudo sobre a freira do Bugio. Um dos pontos fortes da reserva será conhecer melhor esta ave marinha e o seu habitat. Propusemos um Projecto LIFE com esse objectivo e para adoptarmos medidas para a sua conservação, uma vez que é uma ave rara que só nidifica na ilha do Bugio e não se sabe se também em Cabo Verde, pois desconhecemos se efectivamente se trata, ou não, da mesma espécie.

Está também a ser feita uma inventariação e um estudo da flora das Desertas, que permitirá comparar os novos dados com uma catalogação que já existe. Assim saberemos que alterações ocorreram em termos florísticos. Estamos igualmente a tentar conhecer um pouco melhor os invertebrados. É um grupo de animais extremamente importante e deve haver inúmeros endemismos. Como não os vemos, por vezes deixamos para segundo plano, mas em termos de biodiversidade têm a mesma importância que os outros animais», destaca.

É frequente a presença de investigadores na reserva, quer do PNM, quer da Região ou do continente. «Recebemos biólogos de todo o mundo. Uma equipa internacional alemã estudou a geologia das Desertas e fizeram a sua datação». Apesar de ser uma reserva as «portas não estão fechadas», diz Rosa Pires. «O nosso objectivo é permitir que as pessoas a visitem e divulguem, mas é preciso fazer uma gestão adequada. Pretendemos não só receber os visitantes, mas também passar informação» A fiscalização é efectuada por um grupo de vigilantes da Natureza que fazem o patrulhamento e detectam as infracções.

Em relação à possível presença dos pescadores numa área protegida, a responsável diz que a situação está controlada. «A partir do momento que mantemos os patrulhamentos temos quase a garantia que não haverá muitas infracções, mas também sei que no dia em que não existir vigilância elas vão aconteceu. Não verificamos o uso de redes, que seria muito grave para a população de lobos marinhos. Digamos que as infracções detectadas não são muito graves».

Mas o trabalho dos vigilantes não se resume à fiscalização. São eles que fazem o acompanhamento dos biólogos que se deslocam às ilhas e participam activamente nos trabalhos de campo, sendo responsáveis pela continuidade de alguns. Também fazem a recepção de visitas de estudo. Por vezes há trabalhos desenvolvidos que são resultado de propostas dos vigilantes. No final de cada período de vigilância apresentam um relatório.

«A informação é utilizada para tornar eficaz a gestão da reserva e é importante pois são eles que estão no terreno», diz a responsável. Para além da coordenação da Reserva Natural das ilhas Desertas e do respectivo projecto de conservação do lobo marinho, Rosa Pires coordena também a área protegida da Ponta de São Lourenço, que integra o Parque Natural da Madeira. Neste último caso, a acção incide substancialmente na gestão das visitas e na vigilância para que os turistas não saiam dos trilhos. «A vereda não está limitada e é muito procurada até a Casa do Sardinha. O grande interesse da reserva é essencialmente a vegetação e se as pessoas pisotearem perde-se o que existe. Para além disso, há uma fiscalização no mar relativamente à utilização das redes de emalhar, cuja utilização é proibida em todo o arquipélago».

Neste momento, estão a decorrer estudos sobre as aves e a flora, mas Rosa Pires admite que a Ponta de São Lourenço é o "parente pobre" atendendo ao trabalho que está a ser efectuado com o lobo marinho. «Queremos alterar a situação e trabalhar mais no local. Nesse sentido, esperamos em breve promover uma regata de "wind surf" para divulgação". A Educação Ambiental, o envolvimento das escolas nas actividades do PNM é fundamental diz a bióloga. Por isso tem apostado na produção de material de divulgação do lobo marinho das Desertas e da Ponta de São Lourenço.

«O lobo marinho é uma espécie ameaçada que de certa forma entrou em conflito com o homem, que passou a ocupar os seus espaços. Neste momento, quando os animais estão a regressar à Madeira, é preciso informar as pessoas como se devem comportar na sua presença pois, ao contrário daquilo que se possa pensar, o lobo marinho é um animal selvagem e deve ser tratado como tal. Temos receio que as pessoas tentem se aproximar e possam ter acidentes. Se isso acontecer será negativo. Por isso apostamos na divulgação».

No âmbito das acções de sensibilização decorreu recentemente nas Desertas uma limpeza simbólica do fundo do mar, que envolveu alunos de uma escola de Santa Cruz. «O objectivo foi alertar para os problemas do lixo nos oceanos e levar as pessoas a reflectirem. Todo o lixo que é lançado ao mar vai para algum lado, neste caso para as Desertas». Co-autora do livro "O Lobo Marinho no Arquipélago da Madeira", publicado em 1999, tem um projecto que quer concretizar. Trata-se do lançamento de um catálogo de identificação do lobo marinho. «Uma vez que eles começam a aparecer na Madeira, seria interessante dar essa informação ao público».

Outro dos objectivos é obter financiamento para compensar os pescadores que possam ser prejudicados por aqueles animais. «Propusemos à Universidade do Algarve que seja feito um estudo dos efeitos negativos do lobo marinho sobre determinadas actividades piscatórias de modo a encontrarmos uma solução, e para sabermos o que vamos compensar». Quanto ao trabalho futuro com o lobo marinho, o objectivo é prosseguir com o que está a ser feito. «É extremamente importante continuarmos a ter um conhecimento das áreas utilizadas e da época de reprodução, isto porque uma das ameaças efectivas para a população são as tempestades marinhas que ocorrem na época dos nascimentos», salienta a bióloga.

Teresa Florença

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publicado por João Carvalho Fernandes às 11:40
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2 comentários:
De natacha lisichkina a 16 de Janeiro de 2009 às 14:48
gostava de saber mais sobre isso dos leões marinhos
De Alfredo Marques a 31 de Maio de 2007 às 08:37
No dia 29 de Maio, Terça-feira, pelas 11H00 eu estava nas piscinas do lido a cerca de 30 metros da costa e um lobo marinho veio até cerca de 20 metros de mim, era um animal para cerca de 150 ou mais kilos. Observou e depois continuou o seu caminho em direcção a leste. Várias pessoas nas piscinas viram e tiraram fotografias.

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