Terça-feira, 6 de Dezembro de 2005

A vida nas areias

Com a devida vénia ao Diário de Notícias da Madeira

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Conhecer a biologia marinha da ilha da Madeira, em especial os moluscos que vivem nos fundos das areias da plataforma insular, entre os 20 e os 100 metros da linha da costa, foi um dos objectivos da tese de doutoramento de Domingos Abreu, director regional do Ambiente, apresentada em Julho na Universidade da Madeira (UMa). Intitulada "Povoamentos malacológicos de substrato móvel ao longo da plataforma insular Sul da ilha da Madeira", a investigação foi orientada pelo professor Francisco Andrade, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. A propósito da escolha do tema, Domingos Abreu salienta que a Madeira é um laboratório natural e é conhecida sobretudo pela sua fauna e flora terrestres, uma situação que ao nível da biologia marinha não é ainda tão evidente, pois «exceptuando os peixes, conhece-se muito pouco.

Sabemos mais sobre os planetas que constituem a nossa galáxia do que sobre o mar que rodeia as nossas ilhas. Depois, havia que escolher uma unidade que tivesse dupla valência: por um lado, aumentar o conhecimento de um grupo pouco conhecido - os moluscos marinhos de um ecossistema particular - e, por outro lado, desenvolver um trabalho com os meios financeiros disponíveis, pois o trabalho foi realizado com o apoio da Estação de Biologia Marinha, de onde era investigador. Em estudo estiveram os moluscos, onde se incluem todos os animais que têm concha, como lapas, caramujos, grandes búzios e microanimais. Segundo afirma, constituem «um grupo interessante, de grande diversidade e abundância. Cobrem todos os domínios e tipos funcionais ao nível trófico. Existem moluscos herbívoros, carnívoros, filtradores e de todas as estratégias alimentares conhecidas. Habitam todas as posições relativas aos fundos de areias, no topo destas, no seu interior.

Possuem uma enorme diversidade em termos de dimensão e diferenciação morfológica. Na literatura científica estão referenciados como indicadores da diversidade. Considera-se por isso que são um excelente modelo para análise integral de um ecossistema». A ideia era conhecer este tipo de fauna, saber que espécies existem, conhecer a sua densidade e estrutura populacional e ensaiar a interpretação desses povoamentos malacológicos, como são compostos - qualitativa, quantitativamente - integrando os resultados com os dados ecológicos restantes, ou seja, tipos de areias e características químicas, matéria orgânica e profundidade.

Outro dos objectivos foi conferir ao estudo um carácter utilitário. Nesse sentido um dos propósitos iniciais «foi tentar cartografar o padrão espacial dos povoamentos e dos descritores, de modo a que possamos perceber, de uma forma intuitiva, como funciona e está distribuído, para depois disponibilizar essa informação no sentido da gestão integrada das zonas costeiras».

O investigador recorda que a ilha é vulcânica e tem à sua volta profundidades abissais de 3, 4, 5 mil metros. Possui também uma plataforma insular que é caracterizada por ser muito estreita. Trata-se de um ambiente litoral entre, os 20 e os 100 metros de profundidade, e que corresponde a fundos de areias. É onde também se faz a extracção de inertes para a construção. «Do ponto de vista ambiental, o interesse da zona reside no facto de constituir o interface entre o mar e a terra», explica. A investigação incidiu particularmente sobre a vertente sul, entre a Tabua e a Ponta de São Lourenço. Exigiu a definição de uma rede de amostragem ou estações.

Foram traçadas 24 linhas imaginárias entre a costa e a frente aos 20, 35, 50, 75 e 100 metros de profundidade, que no total perfizeram 120 pontos de amostragem e 600 amostras (5 para cada ponto). Esta rede de estações constituiu áreas específicas para recolha de areias que foram submetidas a análise. «Implicou "catar" no microscópio todos os animais, alguns com a dimensão de graus de areia. No global, foram vistas toneladas de areia e retirados 20 mil exemplares de moluscos. Em simultâneo foram caracterizadas as areias, ao nível químico e de granulometria, matéria orgânica...

Numa primeira fase, o trabalho permitiu concluir que, ao longo da costa Sul, as areias não são todas iguais, predominando as médias e finas. «Em termos de matéria orgânica, ficamos a saber que ocorre em teores percentuais elevados. São ambientes que acumulam tudo o que vem de terra, assim como restos de organismos marinhos. De modo geral, os fundos são mais ou menos ricos em matéria orgânica, com picos na zona da Ponta da Cruz ou com maior densidade na zona de Santa Cruz». Em relação à fauna, foram analisados 17620 animais e referenciadas 116 espécies, como vivendo exclusivamente nas areias. Distribuem-se por quatro grupos ecológicos que se mantêm constantes.

«Algumas destacam-se pela abundância. Três delas aparecem em pelo menos 90% das situações. Há um conjunto de seis espécies que surgem em 60% dos casos e há 18 espécies que são raríssimas, registando-se apenas em menos de 1% das situações. Cada uma destas espécies desempenha um papel ecológico. Por isso é importante tentar perceber se podem servir de indicadores de stress ambiental, poluição, instabilidade do ecossistema ou de abundância em termos de matéria orgânica e disponibilidade trófica», acrescenta. Outra das variáveis estudadas foi a densidade com que estas espécies ocorrem, que é variável. «Por exemplo, a Turritella turbona" - que está presente em 60% dos casos - chega a atingir os 3936 mil indivíduos por m2. A distribuição da densidade também varia. Para Leste do Funchal, é menor. Uma das zonas mais ricas é a baía de Machico.

Relativamente à diversidade, segue o mesmo padrão: também é maior na zona Leste, do que na zona Oeste». Domingos Abreu destaca que, «através de métodos estatísticos, foi possível transformar os dados numéricos obtidos em vectores no espaço de "n" dimensões, tantas quantas as variáveis ecológicas estudadas e com isto conseguimos discernir a estrutura elementar que define a complexidade do ecossistema estudado». De forma resumida, as principais conclusões obtidas apontam, em relação aos povoamentos, «uma elevada riqueza específica. Existem 116 espécies e algumas delas apresentam uma abundância particular tremenda, quer em densidade, quer em distribuição. Não há uma correlação entre diversidade/densidade.

A dominância de uma espécie é o factor mais importante, não tanto a densidade com que ela aparece». Conforme refere, a profundidade constitui um factor determinante para a organização destes ecossistemas. É geradora de grupos coerentes, quer de espécies e de estações. «Em termos de espécies, surgem quatro grupos distintos, quer se analise os dados pelas semelhanças ou pelas dissimilaridades e estes grupos são sempre homogéneos, logo, coerentes do ponto de vista ecológico». Sendo assim, explica o investigador, «se elas se repetem sempre juntas e se soubermos quais as situações ou factores ecológicos que as promovem, podemos usá-las como elementos indicadores. O agrupamento maior pode ser assumido como uma unidade típica e servir como indicador de referência da qualidade do ambiente, da conservação da natureza, da biodiversidade, recursos naturais e obviamente para a gestão integrada das zonas costeiras e do mar».

A extracção de areias nestas zonas marítimas tem suscitado interrogações por parte de ambientalistas no que se refere à preservação dos ecossistemas. A propósito Domingos Abreu diz que o trabalho não pretendeu fazer uma análise de impactes, nem de avaliação de qualquer actividade sobre o ecossistema. Tinha como essência conhecê-lo e fornecer elementos que pudessem apoiar a sua gestão. Acrescenta que, «por feliz coincidência», estão a decorrer, no presente, as avaliações de impacte ambiental da extracção de inertes. «O Governo Regional, determinou através da direcção regional de Ordenamento do Território, que se faça a análise para sustentar a exploração». Ficou satisfeito porque o estudo está a se basear também em informação contida na sua tese.

«Está a comparar, a fazer uma avaliação com base numa situação de referência. É possível repetir uma amostra - que o próprio trabalho sugere - e ir avaliando, de uma forma consistente e constante, os impactes e apoiar a tomada de decisões». Recorda que há alguns anos o Executivo tinha solicitado ao Instituto Hidrográfico uma avaliação do potencial e da disponibilidade do recurso "inertes no meio marinho". O investigador salienta que, sem as informações facultadas por aquele organismo, e sem conhecer o funcionamento dos ecossistemas, não era possível fazer uma avaliação. «Creio que neste momento há informação e apraz-me muito ter contribuído nesse sentido».

Quanto a novos projectos, dedica-se no momento a uma actualização do conhecimento global sobre moluscos marinhos da Madeira. Trata-se de um catálogo que está a ser efectuado em conjunto com dois investigadores belgas e que deverá estar concluído em 2010/11. «Estamos a proceder à revisão de todo o conhecimento, desde o Capitão Cook à actualidade. Estimamos que existam na Madeira entre 700 a 800 espécies, muitas delas novas para a ciência». Defende que os investigadores que residem na ilha devem privilegiá-la em matéria de estudos. «Lá fora há muitos investigadores, laboratórios e dinheiro. Sou crítico quando ouço alguém, sediado na Madeira, afirmar que a ilha é um bom laboratório e depois não a use na sua investigação.

A ciência não é fechada, deve ser feita em colaboração, mas não há lugar melhor do que a Madeira para efectuar estudos, em especial de biologia marinha. Não faz sentido, com os poucos recursos que temos, com as dificuldades de acesso a fundos e fontes de financiamento, que nos debrucemos sobre matérias fora da Região, quando há muito para fazer cá dentro». Acrescenta ainda que, cada vez mais temos a percepção que a Madeira é muito sensível ao nível ambiental, que o turismo e a qualidade de vida estão intimamente ligados ao ambiente, e que quanto melhor o conhecermos melhores serão as decisões. Relativamente ao futuro, não pensa desencadear novas linhas de investigação, para além da área da biologia marinha, em especial dos moluscos e da ecologia.

«É preciso consolidar o trabalho nessa matéria e felizmente começam a aparecer jovens licenciados com gosto pelo tema». Pessoalmente interessa-se mais pela integração da informação. «Chegamos a um momento em que no nosso país se faz muita investigação, mas ela não é integrada no modelo de gestão das decisões públicas e privadas. É preciso fazer o interface para que ela não se circunscreva ao nível dos investigadores, sem ter uso». Considera que toda a investigação tem aplicação. «Muitas vezes o que falta são instrumentos, experiência, hábitos de integrar a informação que se produz, ao nível académico, na realidade. Também é preciso que os investigadores saibam disponibilizá-la para a sociedade pois é quem paga a investigação. Esta não pode servir unicamente para satisfação pessoal nos congressos científicos e revistas, apesar desse ser um aspecto fundamental. Estou muito motivado para essa área, para ajudar a fazer a interface entre investigação e gestão», conclui.

B.I. Nome: António Domingos de Sousa Abreu

Filiação: António Tiago Abreu e Fernanda Macedo de Sousa Abreu

Idade: 41 anos

Naturalidade: Freguesia do Monte

Percurso académico: Licenciatura em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, pós-graduação pela Universidade de Cádiz e doutoramento em Biologia Marinha pela Universidade da Madeira.

Teresa Florença (texto) / Manuel Nicolau (fotos)

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publicado por João Carvalho Fernandes às 11:57
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8 comentários:
De a.lourenço a 4 de Novembro de 2008 às 15:06
um biologo que defende um crime monstruoso contra a floresta laurissilva da madeira não devia ser digno de representar a sua profissão.
De K471 a 17 de Maio de 2006 às 22:28
Viva! Que bom, um blog da minha terra!

Conheço o senhor da foto. Grande homem e ex-professor.
De Duarte a 16 de Fevereiro de 2006 às 11:15
Olá,

Gostei deste espaço, era bom que fosse fomentada a criação de mais blogues oriundos da Madeira, como forma de promover, divulgar e agregar pessoas com a afinidade comum de terem nascido nesta ilha. Espero que este projecto não se esvaia, pois este post já tem quase 2 meses.
Um abraço
De Monica Albuquerque a 15 de Fevereiro de 2006 às 10:13
Ola
fiquei muito interessada em conhecer com mais pormenor esta tese. Estou em Lisboa a estudar uma colecção de Gastropodes Marinhos recolhidos nas Ilhas Selvagens em 1994. Uma parte da minha família é madeirense e em parte foi por isso que aceitei este desafio para a minha tese de licenciatura. O meu contacto é mokina_alb@iol.pt
Cumprimentos
Monica Albuquerque
De Jorge Ferreira a 11 de Fevereiro de 2006 às 14:51
Eh pá! Ó João, quando é que fazes o reveillon? nem o Nuno Cardoso demorou tanto tempo...
De lazuli a 22 de Janeiro de 2006 às 04:21
bastante interessante, e já não vou á minha terra há 3 anos. Tive agora a oportunidade de ler este texto dum trabalho dum conterrâneo e ver mais abaixo, ainda só de passagem, este magnífico blog. Parabens.
De Thita a 17 de Dezembro de 2005 às 08:43
Bom dia.
Lá na escola quando der tema livre acho que vou escolher este assunto.
Recorrendo a algumas ajudas do seu blog, claro. Mas não copio, hihi...

Um beijinho
De roger a 16 de Dezembro de 2005 às 11:57
Olá! somos naturais da madeira e estamos neste blog: http://bandadoarco.blogspot.com/ .
gostei do teu espaço e voltarei! ;)

1 abraço.

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